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domingo, 8 de junho de 2014

O berço da civilização ocidental

Restos da esculta do templo Pathernon , dedicado à Atena

Atena levou a melhor sobre o deus do mar, Netuno, e se tornou a deusa da cidade de Atenas, até hoje a principal da Grécia. É difícil não se emocionar ao visitar o país, pois boa parte das nossas raízes culturais, caso da nossa racionalidade, ainda estão lá estão, visíveis em alguma medida. É o caso do Partenon, cujas ruínas dominam majestosamente o ponto mais alto da cidade.

Teoria: nome de rua
Nascia ali, há 2 500 anos, o pensamento investigador, inquisitivo, que culminaria no individualismo contemporâneo e que, a partir daquele momento, se contraporia gradualmente ao pensamento mítico.

Nasciam ali estruturas sociais poderosas, como a democracia -- na qual, em tese, todo cidadão tem o direito à voz.

Brotaria ali, também entre os gregos, tradições cultuadas até hoje, como o amor aos esportes e os Jogos Olímpicos.

Emotivo, o povo grego é um ótimo anfitrião, embora é preciso reconhecer que as coisas não funcionem impecavelmente. Mas a excelente comida, os afetos e as paisagens paradisíacas suprem um certo caos criativo que impera no país.

Delfos, patrimônio mundial pela Unesco. 
É bom saber que há a Grécia continental e as ilhas. No continente, o idioma e a falta de sinalização em inglês nas estradas torna difícil alugar um carro e sair por aí. Mas os tours (diários ou de alguns dias, oferecidos por agências como a Ivis Travel (3, Mitropoleos Street, 10557, na praça Sintagma), são uma boa opção.

Neste caso, é imperativo visitar Delfos, que era reverenciado pelos gregos antigos como o omphalos, isto é, o umbigo do mundo. As sacerdotisas de Delfos, devotadas ao deus Apolo, eram famosas pelos poderes de seus oráculos, que a tradição dizia ter sido herdado da serpente Píton. Tradições posteriores, como a dos índios estadunidenses, já teriam uma leitura mais ampla deste conceito tribal: o sagrado é representado localmente, mas está presente em todo o lugar. Segundo o mitólogo estadunidense Joseph Campbell (1904-1987), por exemplo, era o que dizia o líder espiritual sioux Black Elk (1863-1950), referindo-se às montanhas sagradas.

A boca do leão, entrada para Micenas
Outro sítio arqueológico que realmente vale a visita é Micenas, com cerca de 3 500 anos. Segundo a tradição, Micenas teria sido fundada por Perseu, tendo sido o reino do mítico Agamenon, irmão de Menelau -que, como se sabe, teria perdido a bela esposa Helena para Páris, o que deu início à guerra de Troia. Guerra, aliás, que nos faria herdeiros da fantástica Ilíada e da Odisseia, do poeta Homero, que teria vivido no século 8 a.C..  As cerâmicas e os tapetes locais são maravilhosos.


A acústica perfeita de Epidauro
Outro tour interessante é o que une o teatro de Epidauro, conhecido pela acústica perfeita. Ainda hoje, das últimas bancadas, ouve-se com precisão o som de palmas ou moedas sendo atiradas ao chão no centro da sua base. Epidauro também é famoso por ter sido o local de nascimento de Asclépio ou Esculápio, o filho de Apolo que se tornaria o deus da medicina. Como antigo centro de cura, Epidauro tem um pequeno e interessante museu dedicado às artes médicas.

Aegina, bela vista e pistaches de primeira
Vale a pena fazer um dos cruzeiros de um dia, como os oferecidos pelas agências ou diretamente adquirido pela Hydraiki para conhecer três ilhas mais próximas do continente. A primeira parada é em Poros. Hydra é uma cidade encantadora com muitas lojinhas para comprar artesanato em prata e olhos-grego para presentear os amigos na volta. Em Aegina desfruta-se de uma belíssima vista e da visita à igreja de São Nectário, protetor da saúde, e às ruínas do templo de Apolo, que formaria, com Partenon (Atenas) e Sounion (Netuno), um triângulo protetor mágico. A costa de Aegina é tranquila e bem adequada para banhos no azulíssimo mar.

Cabo Sounio, a uma hora do centro da cidade

Outro ponto importante a se visitar é dedicado ao deus do mar, Netuno. Trata-se do cabo Sounio, que pode ser acessado com facilidade de ônibus local a partir da praça Sintagma. A viagem em si é uma festa, sobretudo se feita no final de semana, com os moradores carregando merendas e cadeiras para desfrutar do dia nas diversas praias da costa litorânea. As ruínas valem a visita e, ao final, uma boa pedida é usar os serviços do Aegeon Hotel para almoçar e desfrutar do belíssimo azul profundo do mar Egeu.

Texto: Monica Martinez


sexta-feira, 6 de junho de 2014

O refúgio do papa

Castel Gandolfo, às margens do Lago Albano

Quando renunciou, no dia 28 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI deixou o Vaticano e partiu para a residência de verão papal, Castelo Gandolfo.

O Papa Bento XVI
Esta comuna italiana fica próxima de Roma, de onde se pode ir tranquilamente de trem por menos de € 10 (dez euros). Com quase sete mil habitantes, Castel Gandolfo é um local extremamente tranquilo e aprazível, que vale a visita.

Os interessados podem assistir a homilia papal no verão, enquanto os apreciadores de boa gastronomia podem se deliciar com o menu dos restaurantes. Para bolsos mais abastecidos, há os restaurantes sofisticados à beira do lago de águas azuis cristalinas, cuja vista é maravilhosa. Aos bolsos mais magros, há também os restaurantes mais modestos, porém com ótima comida, que se distribuem no caminho para o largo papal.

Seminaristas portugueses
Interessante também é conversar com os peregrinos, muitos deles religiosos, outros não, que vão ao local.

Texto e fotos: Monica Martinez

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Para Roma, com amor

No Museu do Vaticano, preciosidades como o teto da capela Cistina

Chegar dirigindo em Roma é uma experiência angustiante, que não desejo a ninguém. Quem acha que o trânsito paulistano é de matar talvez não tenha tentado dirigir na capital italiana. De toda forma, depois que você devolve o carro na locadora e cai de joelhos, agradecendo por ter entregue o veículo no prazo e ainda estar vivo, começa imediatamente a curtir a cidade.

O Coliseu
Uma região boa e barata para se ficar é nas proximidades da estação Termini, com deslocamentos garantidos para todo lugar. Como disse uma amiga que se mudou para a cidade, é feioso, mas não perigoso. Dali, Roma está a seus pés, literalmente, a começar pelo imponente Coliseu. O prático Roma Pass dá direito a desfrutar de uma ampla gama de atrações, com deslocamentos inclusos.

Outra opção é a barroca Fontana de Trevi, onde a bela Anita Ekberg entrou na água, à convite de Marcello Mastroiani, no La Dolce Vita de Fellini.

Em Roma, contudo, meu lugar favorito é a Via Appia, a rainha das estradas. E olhe que os arquitetos romanos entendiam do riscado: o Coliseu era evacuado, em caso de emergência, em 15 minutos. Tempo muito próximo do que aconteceria num grande estádio hoje em dia. Ainda com um verde e uma calma exuberantes, é na Via Appia onde se encontram as catacumbas, aliás local os primevos cristãos se reuniam, não se escondiam. 

Na organizada catacumba de São Sebastião, por exemplo, você encontra doutorandos como guias, que esclarecem detalhes daquele misterioso período do primeiro século de nossa era -- que tanta influência exerce até hoje.

A beleza das Termas de Calacalla
Em Roma gosto também de desfrutar da paz das Termas de Caracalla, construídas no século III d.C., cujas ruínas -- misteriosamente sem edifícios no entorno -- permitem ter uma ideia de como era grandiosa a Roma antiga.


Texto e fotos: Monica Martinez


sábado, 3 de maio de 2014

O centro mundial da ecologia

A Basílica dedicada a Santa Clara, em Assis

Assis é uma cidade luminosa. No verão, devido ao alto contraste entre as construções de pedra clara e o céu azul cobalto, a cidade italiana, localizada na região da Umbria (província de Perugia), com pouco mais de 24 mil habitantes, transmite harmonia e paz.

Melhor começar a visita pelos arredores da cidade, para conhecer Porciúncula (em italiano La Porziúncola), igrejinha do século IV restaurada por São Francisco de Assis (1182 - 1226). Ela se encontra hoje protegida dentro de uma igreja maior, a basílica Santa Maria dos Anjos.

Se chegar ao local próximo à hora do almoço, uma dica é a Trattoria degli Angeli, um restaurante pequeno e encantador, cujo cardápio convidativo oferece  massas frescas caseiras a preços acessíveis.

Em seguida, é partir para Assis propriamente dita. A basílica de São Francisco começou a ser construída dois dias após a morte de são Francisco, e foi decorada pelos maiores artistas da época. Os afrescos A Vida de São Francisco, de Giotto (1266 - 1337), por exemplo, são espetaculares.

Assis, uma cidade luminosa
Outra boa pedida é visitar a bela Basílica de Santa Clara. Ela foi  construída em 1260 para abrigar as relíquias da fundadora do ramo feminino da ordem franciscana. Santa Clara (1193-1253) idealizou a Ordem de Santa Clara, também conhecida por Ordem das Clarissas.

Trata-se de um roteiro que é possível de ser percorrido em dois dias, mas o local é tão encantador que talvez valha a pena planejar um estadia um pouco maior para desfrutar da tranquilidade local.

Texto e fotos: Monica Martinez

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O berço do renascimento italiano


No coração da Toscana, a cidade de Florença -- ou Firenze em italiano -- tem pouco mais de 370 mil habitantes distribuídos em seus 102 km².

Por todas as outras medidas, Florença é grandiosa. Não se poderia esperar menos, afinal, do berço do Renascimento italiano! Do século XV ao XVIII, foi governada pela família Médici, cuja riqueza fomentou a arte e o humanismo.

Cidade natal do escritor e poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), autor da Divina Comédia, transitaram por lá pintores do calibre de Giotto (1266-1337), Botticelli (1445-1510), Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564) e Rafael (1483-1520), apenas para citar alguns exemplos.

Não por acaso, visitar a Galleria Della Uffizi é um must! Encomendada pelo duque Cosme I de Médice em 1560, ela possui um acervo imperdível, com todos os nomes acima e mais. Para evitar-se as imensas filas na entrada, recomenda-se comprar os ingressos com antecedência no site.

Uma experiência interessante para quem está acostumado com uma vida simples é ficar no Ostello Villa Camerata, um hostel localizado numa bela vila renascentista do século XVI. A dica vale sobretudo para quem está de carro, pois o local fica nas cercanias da cidade.

Texto e fotos: Monica Martinez

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Irlanda Mágica



A República da Irlanda é um país que atrai cada vez mais turistas brasileiros, bem como estudantes, pois há uma relação interessante de custo-benefício em ali aprender ou reforçar o inglês em comparação a Londres, por exemplo, uma cidade bem mais cara.

Além da vantagem econômica do pagamento em euros e não em libras esterlinas, o fato é que a Irlanda é um país encantador. Sua capital, Dublin, contém atrativos únicos, como a visita à fábrica da Guiness, cerveja escura símbolo do país. O povo, alegre e descontraído para os padrões anglo-saxões, agita os pubs, embalados pela animada música tradicional ou suas releituras contemporâneas.

Uma visita ao Trinity College Library Dublin permite conhecer iluminuras medievais surpreendentes, como o Livro de Kells, datado de 800 a.C. Há também o James Joyce Centre, ponto de destaque para amantes da obra do autor dublinense.



Para muitos, estes já seriam indicadores suficientes para decidir positivamente por uma viagem. Contudo, há mais. Dublin é cercada de verde, um item importante para amantes da Natureza. Um
destino atraente é o Wicklow Mountains National Park, cuja beleza da flora e fauna é inesperada. Se você contratar um tour para o local, correrá o risco de se deliciar a bordo com o café irlandês: café forte com uma boa dose de whisky nacional. Como mesmo nos dias quentes do verão o local é frio para os padrões brasileiros, a mistura é bem-vinda para esquentar o corpo!

Monica Martinez

quarta-feira, 5 de março de 2014

Ah, Parma! Manja que te fa bene!

O castelo de Torrechiara

Localizada na região da Emília-Romagna, a cidade de Parma é cara aos brasileiros. Afinal, poderíamos viver sem o maravilhoso queijo parmesão, o presunto de parma, o bife a parmegiana e as pastas da Barilla -- mas a vida certamente seria menos gostosa. Comida boa à parte, o fato é que vale a pena visitar esta bela cidade medieval. Nas fotos desta página, por exemplo, o castelo de Torrechiara, com seis séculos, fica a menos de 20 quilômetros do centro de Parma. Ele foi cenário do filme LadyHawke (em português, o Feitiço de Áquila), de 1985.


Texto e fotos: Monica Martinez

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Deixei meu coração na pequena Brendola

Brendola, dourada, sob o sol matinal

Brendola é uma pequena comuna localizada no Vêneto, ao nordeste da Itália, na província de Vicenza, com 25 km² e pouco mais de seis mil habitantes. Descobri-la no verão de 2012 foi uma surpresa.

Igreja de San Michele
Em alguma medida, a parte antiga da cidade continua como desde sempre, com suas construções antigas empoleiradas na parte alta. Ao redor, o verde dos campos, que no verão se tingem de dourado pelo trigo maduro. Com a colheita os campos vão se enchendo de rolos dourados, da palha que no inverno aquecerá a cama das criações.

No alto da comuna está a Igreja de San Michele, que data de 1846, mas continua com ofícios regulares. Meu bisavô paterno, Pietro Rodighiero, pai de Paulo, foi  batizado aqui em 1884 e foi uma emoção ver seu nome no livro de registro de batizados.

Arcanjo Miguel, da coragem
Em seu pórtico, há mais de um século, o arcanjo São Miguel continua sua missão de manter o mal no devido lugar. Na representação da imagem, não é a serpente que é mantida sob as botas, mas o próprio demônio, que se encolhe, com medo, diante do esplendor do escudo do mensageiro divino e de uma espada agora imaginária, imune ao mal, mas que parece não ter resistido às intempéries do tempo.
Julia, do La Quiete

Ao lado da Chiesa San Michelle, o melhor bed & breakfast do mundo: La Quiete, A Calma em bom português. Não poderia haver nome melhor para a pousada: tudo nela é paz, salvo a da consciência, após consumir os quitutes que a proprietária, Júlia, se esmera em oferecer. Trata-se de uma casa antiga totalmente reformada, onde móveis antigos de madeira maciça garimpados ao longo das décadas garantem o clima antigo, devidamente mesclado com arquitetura contemporânea.










Ao lado de La Quiete, o restaurante Novecento. Não houve tempo para degustar seu cardápio, mas o aroma que exalava sugeria comida boa e acolhimento!

Monica Martinez

domingo, 5 de janeiro de 2014

A cidade de Julieta


A cidade de Verona, no Vêneto italiano, é marcada pela história de Romeu e Julieta, de William Shakespeare. O balcão de Julieta, onde Romeu teria se esgueirado, está lá, pronto a ser visitado. Tão interessante quanto é a tradição de as jovens tocarem nos seios da estátua de Julieta -- garantia de encontrar ou, quem sabe, manter um amor.

A cidade cresceu, mas nela as lojas de marca convivem em certa harmonia com a fabulosa arquitetura histórica -- o que levou a Unesco a declarar Verona um patrimônio da humanidade. Prova é o gigantesco anfiteatro romano, hoje em dia usado como arena para shows e demais eventos. Com um diferencial: há um enorme estacionamento bem perto, prova de inteligência de quem projetou o novo uso.



Um personagem em comum que a cidade guarda com o Brasil é Giuseppe Garibaldi (1807-1882), que por aqui lutou pelo movimento separatista do sul do país durante o Segundo Império e por lá lutou a favor da unidade italiana. Do Brasil, Garibaldi levou Anita, com quem se casou e teve filhos.

Texto e fotos: Monica Martinez




sábado, 4 de janeiro de 2014

A eloquente Pádua


Pádua ou, em italiano, Padova, é uma grande surpresa encravada no Vêneto, no nordeste do país. Trata-se de uma grande oportunidade para visitar uma cidade universitária medieval. A história da Universidade de Pádua remonta à 1222, quando foi criada por dissidentes da Universidade de Bolonha, a mais antiga universidade do mundo (esta fundada em 1088). Pertenceram aos seus quadros personalidades mundiais como o matemático italiano Galileo Galilei (1564-1642), que lá ensinou física de 1592 a 1610.

Encantadora também a visita à Basílica de Santo Antonio, carinhosamente conhecida como Basílica del Santo em italiano. O local guarda relíquias como a língua do eloquente franciscano de origem portuguesa, nascido em Lisboa (1191 ou 1195) e falecido em 13 de junho de 1231. Qualquer pessoa casadoura sabe que 13 de junho é a data certa para pedir um parceiro ao santo que, no Brasil, é um ícone casamenteiro.

Uma dica: como em toda a Itália, proíbe-se a visita à basílica usando-se decotes e shorts ou saias curtas. O ideal é planejar o vestuário com antecedência. Caso isto não seja possível, as igrejas oferecem, mediante pagamento simbólico, um não tecido para que o visitante possa cobrir as partes expostas. 

Texto
Monica Martinez

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Doce Veneza

Veneza: uma surpresa ao por-do-sol

Veneza é uma joia encravada no Norte da Itália, na região do Vêneto. A Toscana que me perdoe, mas o meu coração bate mais forte pelo Vêneto. Até 1797 -- ontem, do ponto de vista histórico -- a cidade foi sede da Sereníssima República de Veneza, importante centro que comercializava com o Oriente. Quem fala de globalização como se fosse uma invenção dos séculos XX e XXI se esquece de que a humanidade não começou ontem. Tirando a velocidade, a interatividade e a conectividade propiciadas pela tecnologia digital, já estava tudo lá, na Veneza histórica, capitalismo incluso. Felizmente este passado de glória pode ser comprovado ainda hoje na magnífica arquitetura.

Ao cair da tarde, um passeio pelos canais, de preferência nas charmosas gôndolas, permite desfrutar este patrimônio da humanidade (Unesco).

Uma opção curiosa é tomar os táxis aquáticos locais, que vão parando em diversos pontos -- sempre com a forma de organização italiana, única (se você conhece o local, vai me entender).

Imperdível visitar a Basílica de São Marcos e aproveitar para tomar um gelato na praça que leva o nome do mesmo santo. Vale a pena a visita às inúmeras lojinhas, distribuídas pelas vielas, com seus charmosos produtos locais, como as máscaras e os artigos feitos com cristal de Murano. Mas cuidado para não levar gato por lebre: o barato, aqui, significa levar produto chinês para casa.

Texto e fotos: Monica Martinez

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O divã de Freud

Fui sem muitas expectativas ao Freud Museum, em Londres. Eu já havia visitado o Museu Freud da 19 Bergstrasse, em Viena, onde o fundador da psicanálise morou por 47 anos – do início de seu casamento com Martha, em 1841, até quando conseguiu deixar o país com a família, em 1938, devido à ocupação da Áustria pelos nazistas.

O Freud Museum fica na 20 Maresfield Gardens, em Hampstead, ao norte do centro de Londres. Como tudo o mais na cidade, o acesso ao endereço é simples, basta descer na estação Finchley Road do metrô ou, como eles chamam aqui, underground. Há áudios e material em bom português, o que facilita bastante a vida dos brasileiros.
Trata-se da casa onde Freud morou por um ano, de 1938 até a morte, em 1939 – há 16 anos ele já sofria de câncer no palato. Aqui finalizou o livro Moisés e o Monoteísmo, bem como seu trabalho final, O Esboço da Psicanálise, uma espécie de síntese de sua obra. A casa foi preservada exatamente como na época da vida de Freud – com todos os móveis trazidos da Áustria graças a um oficial nazista simpatizante da psicanálise – por sua filha, Anna. Ela, que seguiu a carreira do pai, teve o endereço como residência até sua própria morte, em 1982, quando em testamento dedicou o espaço à criação de um museu. 

Não há dúvida: o ponto central da residência é o estúdio de Freud. Voltei a ele por três vezes, pois mais parece uma sala de colecionador de arte antiga do que um consultório médico. O psiquiatra era apaixonado por antiguidades, em particular egípcias e romanas, e o local transpira esta paixão. O estúdio é composto por quase 2 mil itens, de livros a quadros e fotografias, como a de seu mentor, Jean-Martin Charcot (1825-1893), neurologista francês  cujo trabalho motivou Freud a optar pela Psiquiatria.
 
Contudo, o principal ponto focal deste estúdio, a meu ver, é a insuspeitada quantidade de estatuetas, rigorosamente alinhadas na mesa, como ele de fato as usava. É simplesmente hipnótico -- difícil parar de observá-las. Há duas estatuetas em particular que são interessantíssimas. A primeira é uma estátua branca de um babuíno, de um palmo, que simboliza o Deus egípcio do conhecimento, Tot.  A segunda é a figura de um chinês, símbolo da sabedoria. Sempre que chegava ao consultório, Freud tinha o ritual de conversar com ela, como com um velho amigo.
O divã original também está lá. Ao seu lado esquerdo, a cadeira verde onde o doutor Freud atendia seletos quatro pacientes neste ano final de sua vida. Manter a cadeira fora do campo de visão do paciente foi a solução que o médico encontrou para não ter os olhos fixos dos clientes nele, durante todo o dia, uma vez que no auge da carreira chegava a passar dez horas em sessão.

Na visão de Freud, a relação entre a Psiquiatria e a Arqueologia estava no fato de que ambas lidavam com coisas esquecidas, que tinham sido preservadas justamente porque haviam ficado soterradas.  Freud, convém lembrar, foi um dos mais importantes pensadores do século XX justamente porque  introduziu vários conceitos na ciência, como o de inconsciente pessoal, que para ele consistia em conteúdos reprimidos pela consciência.
Ao sair, a sensação de que este pequeno grande museu é uma visita imperdível para quem está de passagem pela capital inglesa. Para saber mais, clique no site do Freud Museum.

Texto Monica Martinez
Fotos: Freud Museum

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Viena: um roteiro a ser descoberto


Venus de Willendorf:
achada às margens do Danúbio
há 25 mil anos
Viena é um roteiro ainda a ser descoberto pelos turistas brasileiros. A capital da Áustria compartilha a organização com sua companheira de fronteira, a Alemanha. Tudo funciona como um relógio, a começar pelo sistema público de transporte.  Contudo, a localização na Europa – mais ao sul – e a herança da religião católica emprestam um brilho todo próprio ao povo austríaco.  
Há também elos que ligam diretamente a história brasileira à vienense. Afinal, a primeira esposa de D. Pedro I, dona Leopoldina, pertencia à casa dos Habsburgos, na época em que o Império Austro-Húngaro rivalizava em poder com outras potências europeias, como a francesa e a inglesa. Quem visita o fantástico quarteirão dos  museus, com seus edifícios impressionantes, pode imaginar o baque que nossa imperatriz sentiu ao chegar à provinciana corte carioca no início do século XIX. Nem seu bem intencionado desejo de incrementar o acervo de história natural dos museus austríacos foi suficiente para livrá-la da morte precoce devido ao desgosto pelas escapadelas românticas de nosso primeiro imperador. Seu amor pela ciência, contudo, foi herdado pelo nosso segundo e último imperador, D. Pedro II, ele também um incentivador das artes.

Os museus vienenses são um capítulo à parte. O complexo do Museums Quartier Wien é o maior centro cultural do mundo. Gosto particularmente do acervo do Museu de História Natural (Naturhistorisches Museum). Ele foi inaugurado em 1889 e não há nada muito interativo nele, aliás a experiência de ver um acervo à moda antiga é de todo interessante. É lá que está a roliça e pré-histórica Venus de Willendorf (acima). Esculpida há cerca de 25 mil anos, a estatueta com pouco mais de 11 cm é considerada uma das primeiras representações do feminino da saga humana.

Neue Burg: um "puxadinho" imperial que não chegou a
ser usado por hóspedes devido a queda dos Habsburgos
Há um combo de tickets que permite ver o bem abastecido Museu da História da Arte (Kunsthistorisches Museus), o Neue Burg (o novo anexo feito no século XIX ao Palácio Imperial Hofburg, que tem coleções impressionantes de armas e armaduras, bem como um acervo de instrumentos musicais antigos de peso -- lembre-se que estamos falando da terra de Mozart e Schubert) e os Tesouros dos Habsburgos (Schatzkammer).  
Deste último museu, gosto particularmente da coleção de relíquias, acumulada durante os séculos de domínio dos Habsburgos. Lá você pode ver um pedaço da cruz onde Jesus foi crucificado, um dente de João Batista e outro de São Pedro, entre outras peças. Se elas são verdadeiras? Isto já é outra história... O fato é que muitas delas foram veneradas desde o século XIII pelos cristãos. 
Outra opção interessante é visitar a Berggasse 19. Quem leu algo sobre Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, sabe que foi neste endereço – hoje transformado no Freud Museum – que ele atendia seus clientes até ter de se mudar para Londres por conta da Segunda Guerra Mundial.

Outra boa pedida é visitar o prédio principal da Universidade de Viena, onde professores como Freud revolucionaram as ciências humanas  -- foram nove prêmios Nobel até a Segunda Guerra Mundial, quando um quinto do corpo docente foi mandado para o exílio ou o extermínio.
Não estranhe: os austríacos tomam o vinho branco
com água gaseificada para deixá-lo mais suave
Depois de se nutrir de cultura, é hora da cuidar do estômago -- que ninguém é de ferro. Nos subúrbios vienenses, onde antigamente ficavam fazendas, hoje são encontrados os heurigers, locais onde se degusta a excelente comida típica, bem como o vinho branco produzido na propriedade. Um detalhe: os austríacos têm o hábito de consumir o vinho branco local com água gaseificada.

Seja você enólogo ou não, não perca o passeio pelo vale do Wachau, onde produtores de vinho fazem degustações do produto. Uma dica fantástica é o Winery Bike Tour (WWW.viennaexplorer.com), um passeio inesquecível de bicicleta pelos aromáticos vinhedos. Apenas certifique-se de estar em boa forma antes de contratar o serviço, pois você vai precisar pedalar bastante para chegar ao final.
 No quesito gastronômico, não deixe de experimentar o Wiener Schnitzel, um filé de porco empanado, fininho e crocante. Acredite: depois dos tempurás japoneses, é a fritura mais sequinha que você encontrará na face da terra! Finalmente, na hora de trazer souvenirs, não se esqueça de entrar em qualquer supermercado. O chocolate Mozartkugeln não é caro, não pesa na mala, aguenta firme o calor e ainda faz a alegria de quem o recebe.

Monica Martinez

domingo, 31 de julho de 2011

Narrativa de viagem à italiana

Sardenha como uma Infância, do italiano Elio Vittorini (1908-1966), não é um livro sedutor, daqueles que impressionam à primeira vista. Aliás, por ser da editora Cosac Naify, pode-se até dizer que é uma obra despojada. São 128 páginas, apenas quatro delas ilustradas com fotografias antigas em preto e branco.


Começa-se a leitura sem grandes expectativas, até porque a estrutura de 43 capítulos pequenos – inovadora quando ela foi escrita, em 1932-1933 – flue familiar aos olhos do leitor contemporâneo, acostumado aos relatos curtos da internet.

A partir daí, o livro realiza, diante de nossos olhos arregalados, aquele prodígio da transmutação reservado a atores excepcionais. Vistos de perto, são pequenos, mas, observados no palco ou nas telas, crescem enormemente.

A obra é uma narrativa de viagem, publicada na coleção Companheiro de Viagem. Nela, o escritor siciliano comenta de forma aparentemente despretensiosa sua viagem por outra ilha da bota, a Sardenha. Suas descrições são sintéticas, suas impressões acuradas, sua escrita impecável. Veja esta frase sobre a ilha:

“Mas é sobretudo Sardenha: por esta solidão em cada coisa, em cada penhasco que parece fechado em si mesmo, meditando, e em cada árvore ou viandante que se encontra, e por esta luz, e por este cheiro de rebanhos a caminho, bem para lá do horizonte”.

Na dúvida, para não perder nenhuma pérola, você pega um lápis e começa a sublinhar uma e outra passagem e, quando vê, está com o livro todo rabiscado. Afinal, a linguagem é um misto de prosa e poesia, usada para revelar a ilha e seus personagens com olhos encantados, curiosos, prazerosos. Há a sensação de que o narrador descobre universos de uma forma mais profunda até do que se o próprio leitor estivesse na ilha – e a vontade é a de continuar vendo-a por meio deste olho mágico.

Há um trecho particularmente interessante, sobretudo para quem aprecia vinhos. Trata-se de “Os sobreiros”, sobre a árvore cuja casca retirada serve para fazer rolhas.

“Parecem oliveiras, de folhagem um pouco mais pálida, um pouco mais crespa, mas têm troncos que sangram. Da base até precisamente a ramificação dos primeiros galhos, toda a cortiça foi extraída. Restou o tronco vivo. Em alguns casos, de um vermelho dourado; em outros, como couro curtido. Outros ainda, sob a ação do sol, adquiriram uma coloração violácea. Os mais velhos, descortiçados no ano anterior, se recobriram de um musgo azulado. Mas não há nenhum intacto. Até as árvores mais jovens, de corpo fino, mostram um pé sangrento. Estranho como se parecem vivos estes cortes! Vem o pensamento espontâneo: pobres animais...”.

Aí a gente para e se pergunta: porque não há mais textos assim no jornalismo contemporâneo de viagens,  onde em boa parte das matérias se sente que, apesar do repórter ter estado de corpo presente, o texto é vazio de alma, como se o olhar curioso e atento do profissional estivesse a léguas de distância. O resultado: textos pasteurizados, sem vida, que são esquecidos mal finda a leitura.

Do ponto de vista histórico, pode-se dizer que a obra é o canto de cisne de um mundo que estava em ocaso. Em 1932-33, a Itália vivia sob o regime fascista de Benito Mussolini, o Partido Nacional Socialista alemão se fortalecia e pouco depois se deflagraria a sangrenta Segunda Guerra Mundial.

Não, a obra não é sedutora, daquelas que derrubam com um gesto. Antes ela é cativante, daquele tipo que envolve aos poucos até que você não consegue mais viver sem ela, que se quer ter por perto na estante para consultar sempre. Como é mesmo que Vittorini descreveu uma ilha? Ah! “Sardenha é uma verdadeira ilha, encapsulada em seu esplendor e suas tempestades”.

Ficha técnica

Avaliação
***** Leitura Imperdível

Título: Sardenha como uma Infância
Autor: Elio Vittorini
Tradução: Maurício Santana Dias
Formato: 15,5 x 19 cm
Páginas: 128.
Ilustrações: 4

terça-feira, 30 de junho de 2009

Parques nas alturas


Na Ilha da Madeira há dois parques que merecem a visita. Para chegar ao primeiro, o Jardim Tropical Monte Palace, pode-se pegar o teleférico da orla marítima, próximo ao mercado.

Extremamente bem cuidado, sua história remonta ao século XVIII. A antiga quinta – como eram chamadas as grandiosas propriedades pertencentes às elites locais ou estrangeiras – hoje pertence à Fundação criada pelo último proprietário, José Manuel Rodrigues Berardo.

São 70 mil metros quadrados que permitem comprovar a evolução do paisagismo europeu nos últimos séculos. Destaques: os painéis em terracota batizados de “A Aventura dos Portugueses no Japão”, feitos pelo então proprietário na parte do jardim em estilo oriental, com belos budas esculpidos em pedra.

Basta pegar um segundo teleférico para chegar ao Jardim Botânico criado em 2005. Menos imponente que o anterior, a visita vale pela deliciosa viagem de bondinho e pelos saborosos pratos rápidos, como a salada de polvo, servidos em sua cafeteria.
Texto e foto: Monica Martinez

terça-feira, 23 de junho de 2009

Enologia: o vinho madeira

O vinho é uma das atrações da ilha da Madeira. Não é raro chegar a um restaurante e ser convidado a degustá-lo. Afinal, trata-se do principal produto de exportação local.

A tradição vem de longa data. Nos últimos cinco séculos, pequenos produtores têm se esmerado em cultivar videiras de forma artesanal nos “poios”, pequenos nacos de terra amparados por terraços situados nas encostas das montanhas.

À semelhança ao do Porto, o vinho é submetido ao processo de estufagem, aquecido a 50 graus durante 90 dias, findos os quais fica maturando em temperatura ambiente.

O método, que já era adotado pelos gregos, foi redescoberto durante o período das viagens marítimas dos portugueses, quando os vinhos embarcados nos porões dos navios, submetidos aos calores dos trópicos, voltavam melhor do que haviam ido.

A presença de ingleses na ilha fez com que o produto ganhasse fama mundial. Não por acaso, a independência dos Estados Unidos, em 1776, foi celebrada com este tipo de vinho.

Segundo o guia Madeira e Porto Santo, são mais de 30 variedades de uvas usadas para o preparo do produto, que é encontrado nas versões seco, meio-seco, meio-doce e doce.

Da uva Sercial é feita boa parte dos vinhos secos. De cor clara, ele é servido como aperitivo.
A uva Verdelho é a base mais comum do vinho Madeira meio-seco. De cor dourada, é recomendado para acompanhar refeições.

Já a uva Boal é o segredo do vinho meio-doce, indicado para acompanhar assados e sobremesas.
Da casta Malvásia se produz o vinho doce. Vermelho intenso, mais encorpado e perfumado, ele é ideal para ser servido após a sobremesa, à semelhança do vinho do Porto.

Qualquer que seja a escolha, o vinho Madeira é melhor apreciado em taças mais fechada na borda, que permitem preservar seu buquê.

Quem visita a ilha entre agosto e outubro pode participar das colheitas e quem lá estiver em Setembro, da Festa do Vinho Madeira.

Fora desta data, basta uma ida ao supermercado ou a uma casa de vinhos para trazer na bagagem (a despachada, não a de mão) a iguaria que faz muito sucesso entre brasileiros. Há garrafas a partir de € 5.

Texto: Monica Martinez
Foto: Google