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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Projeto Missões - Parte 11: as minas de ametistas de Wanda



Chove e o dia está próximo do fim (o que significa pouca luz para ver o local) quando chegamos à Wanda, na Província argentina de Missiones. Até então, o nome Wanda era referência de uma marca de tinta e da comédia estadunidense Um Peixe Chamado Wanda (A Fish Called Wanda, 1988), com os ótimos John Cleese, Jamie Lee Curtis, Kevin Kline e Michael Palin.

A partir de então, Wanda quer dizer um mergulho no coração da terra para ver o local onde brotam semi-preciosas. Trata-se de uma camada de basalto maciço que se estende até Brasília, fruto de um derramamento primevo de lavas vulcânicas. Com o esfriamento ocorreram bolhas de ar que, ao longo dos milhões de ano, se transformaram nos geodos que hoje vemos incrustados nas paredes de rocha.



Os minerais que estavam no interior desses geodos são responsáveis pela variação de cor e pela dureza das ametistas ali aninhadas. Em geral, quanto mais intenso o brilho da pedra, maior seu valor. Por isso, quanto mais roxa a ametista, mais cobiçada ela é. O mesmo vale para a dureza, pois quanto mais resistente, mais ela pode ser trabalhada.

Depois dessa parte geológica da expedição, hora de embarcar rumo à Nova Iguassu, já no Brasil – onde um jantar brasileiro nos espera.

Fotos e texto: Monica Martinez

sábado, 17 de outubro de 2009

Projeto Missões - Parte 10: o local da infância de Che Guevara


É com um misto de reverência e curiosidade que muitos do grupo se aproximam ao Solar de Che Guevara, em Caraguatay, no departamento de Montecarlo, na província de Misiones.

Trata-se do local onde o revolucionário argentino (1928-1967) viveu até os quatro anos de idade. São poucos, no entanto, que seguem na visita às ruínas da casinha onde a família morou, que é feita com guarda-chuva e capa debaixo de um aguaceiro torrencial.

A visão é modesta, mas vale a pena. Afinal, esta parte da história não está contada nem em O Diário de Motocicleta, filme que aborda a juventude do revolucionário do diretor brasileiro Walter Salles, de 2004, nem em "Che", o relato de sua saga revolucionária feito pelo diretor estadunidense Steven Soderbergh, de 2008 (este, aliás, um filme para iniciados, difícil de ser visto por quem não sabe de cor os detalhes biográficos).

Diz o guia local, Diego Cabral, que a mãe e o pai de El Che fugiram para Caraguatay quando ela engravidou antes do casamento. O que na comunidade de classe média alta que pertenciam não era visto com, digamos, bons olhos. Tanto que o biógrafo do argentino, o escritor Jon Lee Anderson, baseado em relatos orais, defende que Che não nasceu no dia 14 de junho, mas um mês antes – mudança de data conveniente para se ajustar à data do casamento.

O pai de Che, Ernesto Guevara Lynch, um empreendedor descendente de irlandeses, viu no local um ponto promissor para o plantio de mate e a extração de madeira. O menino nascido em Rosário, que sofria de asma, não se aclimatou ao local úmido no meio da mata, aliás, preservada hoje com a criação do Parque Provincial Ernesto Guevara de la Serna. Basta caminhar um pouco pelas trilhas que saem da sede para ver o ponto mais estreito do rio Paraná e, a 500 metros dali, na outra margem, o Paraguai.


Em busca de ares mais secos, em 1932 a família de Che muda-se para Altagracia, em Córdoba. Mas parece que o pequeno não esqueceu o espírito empreendedor do pai e as histórias sobre vida comunal ouvidas nas missões. Nem as lições dadas pela mãe, Célia de La Serna, responsável por parte de seus estudos fundamentais, baseados na biblioteca de cerca de três volumes com obras de Marx, Engels e Lenin distribuídas pelas residências do casal. No ambiente familiar, Che ainda ouve os primeiros diálogos da mãe com o pai a respeito dos direitos dos tralhadores contratados nos empreendimentos familiares.

Depois da visita, nos espera um churrasco portenho capitaniado pelo consultor local, Ricardo Brizuela, no Quicho da Mariela. Sobre esta parte da expedição, vale a leitura do blog da jornalista Risomar Fassanaro (http://pbondaczuk.blogspot.com/2009/09/quicho-da-mariela-por-risomar-fasanaro.html).

E pela riqueza das fotos e informações, uma dica é consultar o site do Solar de Che (http://www.solardelche.com.

Fotos e texto: Monica Martinez

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Projeto Missões - Parte 9: As missões paraguaias

Logo após o café da manhã, a expedição parte para Encarnácion, no Paraguai. A meta é visitar as ruínas de duas missões. A primeira visita feita é à Mision Jesuitica de Santíssima Trinidad Del Parana. Lá nos aguarda a guia Cintia Martinez, que explica que a missão foi fundada em 1726 e declarada patrimônio da humanidade pela Unesco em 11 de dezembro de 1993. O que impressiona no local são os detalhes majestosos, como a estátua de São Pedro logo no portal de entrada, a elaborada pia batismal e os notáveis detalhes em baixo relevo que ornam as paredes da igreja. Um pequeno museu guarda ossadas de chefes indígenas que lá viveram e atraem a atenção de adultos e crianças.

O item mais encantador da segunda redução paraguaia, Jesus de Tavarengue, não são as ruínas bem preservadas – afinal se trata da redução mais nova, que nem chegou a acabar de ser construída uma vez que o ciclo das reduções se encerrou antes de sua finalização. Mas uma jovem de 16 anos, Tamares Martinez, que trabalha como guia voluntária. Pequenina e com um eterno sorriso nos lábios, ela se abre com o grupo: “Como sou de menor, não posso receber soldo”, explica, dizendo que não ganha salário para ali ajudar.


Embora o dinheiro certamente fosse bem-vindo, ela é voluntária simplesmente porque é convicta da importância de transmitir a história da redução para os visitantes. Com esse objetivo em mente, Tamares conta que depois da expulsão dos jesuítas a missão foi conduzida por padres dominicanos e franciscanos. “Como não falavam guarani, eles não conseguiam se comunicar bem com os povos locais”, lamenta. Felizmente o nosso “portunhol” é suficiente para entender a grandiosidade da missão dessa jovem na preservação de parte importante da cultura paraguaia.
Jesus é a última missão a ser visitada pela expedição antes do retorno a Posadas e o jantar no restaurante Cavas. Agora o roteiro mudará radicalmente.

Fotos e texto: Monica Martinez

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Projeto Missões - Parte 8: A surpreendente Posadas


No final do terceiro dia, chegamos a Posadas, bela cidade de menos de quatrocentos mil habitantes aninhada às margens do rio Paraná. O Hotel Júlio César é aconchegante e tem aquecimento central.

O jantar, no restaurante La Querência, guarda uma surpresa: o bate-papo animado com Aparecida dos Santos, Maria Valentina Lopes e Eibel Batista. A primeira não se deixou abater por um mal estar temporário na saúde e desfruta animadamente toda viagem. A segunda, uma guerreira sempre exuberante e alto astral, criou com garra, coragem e muito empreendedorismo os dois filhos depois da separação. Finalmente a doce Eibel, professora dedicada do ensino fundamental, viajou sem o marido, José Alberto, que apresentou reação à vacina contra a febre amarela e infelizmente não pôde embarcar com o grupo.

Após o jantar, outra novidade: “Acho que vale a pena lembrar o passeio pela Praça 9 de Julho, que foi muito interessante. A limpeza e o cuidado daquela praça nos deixaram admirados”, lembra a professora Maria do Carmo Hegeto. De fato, passadas às 23h, as pessoas caminham tranquilamente pelo local, levando seus cães para passear. Ela continua: “Tanto que a Nádia, a Fernanda e a Priscili resolveram desfilar e tal fato não poderia ter passado despercebido”, recorda.

Em frente ao Cassino, a descoberta do teto espelhado deixa encantada Hiroko França. “Observe que ela não sabia estar sendo fotografada e apontava toda admirada o efeito do espelho”, lembra Maria do Carmo.

Texto: Monica Martinez
Fotos: Maria do Carmo Hegeto

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Projeto Missões - Parte 7: San Ignacio Mini

Na Argentina, o primeiro destino é San Ignacio Mini. No pequeno museu da entrada, mãe e filha pequena olham atentamente para a maquete da redução fundada em 1631 pelos padres José Cataldino e Simón Masceta.

A menina é pequena demais para entender de História, tampouco de arquitetura. Mas a maquete é tão simbolicamente expressiva que até ela compreende que se trata de uma cidadela com igreja, casinhas e escola.

O que ela não sabe é que a redução foi constantemente atacada por bandeirantes. Aqui, eles não têm a fama de desbravar fronteiras como no Estado de São Paulo, onde dão hoje nome a rodovias como a Raposo Tavares. São chamados de “cazadores portugueses de esclavos”. Dispensável a tradução.

Indispensável, porém, dizer que os ataques foram tão intensos que o povo deixou a redução um ano depois de fundada e abrigou-se nas margens do rio Yabebirí, onde fica a atual Província argentina de Missiones que visitamos. As ruínas atuais de San Ignacio são de 1696. Resistiram firmes e fortes até 1817, por precisos 121 anos. Até serem destruídas por paraguaios, jovem nação que havia se tornado independente apenas seis anos antes, em 1811.

Esta redução não tem preservada a fachada da igreja, como São Miguel, no Brasil. Mas nela restam ainda os muros de pedra das “vivendas” (casas), as ruas espaçosas e fantásticos entalhes nas pedras, bem como pisos diferentes para cada ano da classe escolar, permitindo ao visitante “mergulhar” com intensidade na grandiosidade estética das missões.

Fotos e texto: Monica Martinez

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Projeto Missões - Parte 6: a difícil passagem para a Argentina


Na terça-feira, 14 de julho, depois de um farto café da manhã, partimos para a missão de San Ignácio, que fica na Argentina. O dia está ensolarado e a viagem segue tranquila até a cidadezinha de Porto Xavier, com seus pouco mais de 11 mil habitantes. Do outro lado da margem do majestoso Rio Uruguai está a cidade argentina de San Xavier.

Apesar da aparência bucólica, trata-se de uma passagem importante. Aliás, pelo Porto Internacional de Porto Xavier passam muitas pessoas e carga, como as cebolas argentinas que abastecem os mercados nacionais. Não há ponte e a transferência é feita por balsas ou pequenos barcos. No posto da Polícia Federal, alguns agentes usam máscaras para proteger-se contra o vírus da gripe. Nesse momento, a Argentina é um dos países mais afetados. Estamos no auge do surto e os passageiros do ônibus não deixam de ficar apreensivos com a demora na liberação da documentação.

Você está acostumado a cruzar com tranqüilidade as fronteiras virtuais entre os países da comunidade econômica européia? Pois esqueça. Não há nada que lembre aquela facilidade nas fronteiras que integram os países do Mercosul.

É o início de uma saga pessoal. Pela falta de um documento de Laura, o agente federal não nos permite deixar o país. Fico olhando para ele, apatetada, até compreender toda a complexidade da situação. Não adianta explicar que estamos numa excursão e que ficaremos para trás. Inflexível, Rodrigo diz que pode até aceitar a documentação por fax, mas é o máximo que pode fazer. Depois da perplexidade inicial, confesso que sinto um imenso respeito pelo profissional que está cumprindo seu dever.

Ficamos para trás eu, meu marido, Laura e, a pedido de Marcos, um jovem guia, Caio, estudante de turismo da Faculdade São Judas, de São Paulo. Através do contato pelo celular entre Caio e Marcos, nos sentiremos o tempo todo apoiados pela equipe. Contudo, no momento, não há palavras que descrevam a sensação de ver o ônibus embarcando na balsa sem nós. Por outro lado, há também uma certa sensação de aventura, aquele frio na barriga “do que virá pela frente”.

Depois de ter solicitado o envio do documento que falta a São Paulo (o que exigiria uma ida a um cartório paulistano e o despacho via fax do documento), procuramos um lugar para almoçar. A indicação é a lanchonete da Suzy. Depois de caminharmos umas três quadras, por simpáticas casinhas pintadas com capricho, somos acolhidos num local simples por uma garotinha loira de não mais que 9 anos, que imediatamente nos arruma uma mesa no local cheio graças a sua comida caseira bem feita vendida por sistema de quilo.

Na volta, percebemos que a fronteira fecha na hora do almoço e não há ninguém no local para receber o fax que estava sendo despachado de São Paulo. Precisamos passar logo para o outro lado para encontrar com o pessoal que almoça no restaurante La Carpa Azul, já em San Ignácio. Caminhamos até descobrir um despachante, cujas atendentes gentilmente aceitam receber o fax.

Somos informados de que não poderemos pegar a balsa, mas teremos de comprar passagens de R$ 7 por pessoa para cruzar o rio de lancha, na verdade pequenos barcos de madeira que ficam à disposição no local. Caio providencia a compra dos bilhetes. A fronteira abre e a multidão de pessoas e carros move-se como um rebanho apressado em direção à balsa. Sem pensar muito, seguimos a multidão e damos de cara com o agente federal, que nos lança um olhar reprovador, desconfiado, como se estivéssemos tentando burlar a lei. Exibo o papel solicitado, que é carimbado.

Enquanto ficamos aguardando a saída da lancha, cujo condutor liga de seu celular providenciando um táxi para nós do outro lado do rio, conversamos com Odair, um dos policiais que guarda a área. Com 20 e poucos anos, ele reside na cidade fronteiriça pelo mesmo tempo e nunca teve a chance ou a curiosidade de passar para o lado argentino.

Num primeiro momento, fico perplexa. Afinal, estamos vindo de tão longe para conhecer a região. Logo um segundo pensamento me cruza a mente: quantas coisas e pessoas existem ao nosso entorno onde moramos e trabalhamos que também não nos damos ao trabalho de conhecer? Vizinhos, locais, parques, museus, feiras... Ocorre-me que no fundo somos todos iguais, elegando falta disso ou daquilo, tempo ou dinheiro, para nos vincular mais à nossa própria comunidade. Na hora do clique, Odair tira rapidamente a máscara anti-gripe para sair bem na foto. Sorrio. De fato, somos todos iguais.

Depois de carimbar os papéis do outro lado, seu Moreira é o jovem taxista que nos guia pela Província de Missiones em seu maltratado Uno bordô ano 2 000. Seguimos os 60 km pela Rota Nacional 12 que nos separa do grupo, que já almoça em San Ignácio. Filho de brasileiros, ele começou a residir com os pais numa colônia rural. Hoje tem família bem aculturada, com dois filhos, um de 14 e outro de 7, e não pensa em fazer o caminho de volta ao Brasil. Seu Moreira fica encantado com as bananas passas que oferecemos: achamos um brasileiro que não conhecia a iguaria nacional.

Enquanto rodamos pela Província, com seus campos pouco cultivados, embora sem vegetação original preservada, as garotas do grupo têm uma surpresa e tanto no La Carpa Azul. E não estamos falando dos pasteizinhos fabulosos, que eram espartanamente distribuídos na medida de dois por pessoa. Nem do restante do menu, que talvez não estivesse ao gosto de todos. “Bom a Iara, o Vitor e o Ivan adoraram a carne, pois eles adoram sangue! Mas a Iara falou que a carne dela estava muito assada, completamente o oposto da minha que veio quase mugindo no meu prato!”, brinca a professora e atriz Nádia Hegeto, 20, que viajava com a mãe, a também docente Maria do Carmo Hegeto.

O motivo do alvoroço foram os quatro ônibus repletos de mecânicos de todas as idades da fórmula Truck que desembarcaram no estabelecimento. “Era um verdadeiro self service de homens”, ri Nádia. “Quando eu, Fernanda, Priscili e Karla nos levantamos para ir ao banheiro, eles nos aplaudiram muito. Foi um momento hipervergonha, mas gostamos de ter abalado sem querer. Exceto a Pri, que odiou essa situação”, lembra a falante Nádia, que durante a excursão conquistou a todos pelo bom-humor.

Aliás, o grupo de jovens, evidentemente sentado no fundão do ônibus, incluía além de Ivan e Vitor a designer de moda Fernanda Toneto Rodrigues, as estudantes Priscili Silva Souza e Ana Paola Castro, a artista plástica e docente de ensino fundamental Ana Karla Chaves Muner, bem como o artista plástico Daniel Pitorri Benedito. Sem eles a viagem teria sido infinitamente menos interessante.

Fotos e texto: Monica Martinez

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Projeto Missões - Parte 5: uma cidade que cortou suas raízes

— Por que não roubam moto de japonês? — pergunta Marcos, arregalando suavemente os olhos orientais.

Na primeira vez que a piada foi contada, na viagem para o Rio Grande do Sul, todos se entreolharam discretamente. Descendente de japonês teria isenção diplomática para contar piadas politicamente incorretas?

Agora que todos já estão acostumados com a seriedade de Marcos, o deleite é geral e visível na hora das pegadinhas.

— Por que japonês compra Yamaha — diz Marcos, separando bem o Y do Amaha, o que faz o nome da empresa soar como “e... amarra”. Outras piadas serão contadas, mas nenhuma agradará mais que esta, que sempre é solicitada durante as rodadas.

Depois do almoço, e ainda acompanhados de Nadir, seguimos para Santo Ângelo, antiga redução jesuítica que fica a 65 quilômetros de São Miguel das Missões. O ar histórico, aqui, se perdeu.

A cidade tem 77 500 habitantes que descendem de portugueses e, mais recentemente, de outros povos imigrantes europeus e, ainda mais recentemente, paulistas e paranaenses, que começaram a repovoar a área a partir de 1828 sob ordens do general Gomes Freire de Andrade, que tinha como objetivo impedir o retorno dos indígenas à área.

Não é, portanto, por acaso que não resta pedra sobre pedra das construções jesuíticas, nem orgulho de suas raízes – o que Nadir lamenta muito. Aliás, ela explica que as casas mais antigas foram construídas com esse material. É justamente o caso do Museu Doutor José Olavo de Machado, construção do século 19 que recebe o grupo graças a um acordo prévio com a expedição, embora seja uma segunda-feira, dia em que o local é fechado para visitação. No interior do museu, uma maquete permite visualizar os dias de glória do local, quando o guarani era o idioma oficial — embora ele ainda componha 20% do que o brasileiro fala segundo Nadir.

Fotos e texto: Monica Martinez

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Projeto Missões - Parte 4: vinhos orgânicos


Três pontos são fundamentais para o agroturismo: a herança cultural (oferecer algo que está entranhado nas raízes do lugar ou da família), a atenção com o meio ambiente e... a gastronomia. Essa lição, ensinada por Leandro Carnielli, pequeno proprietário de Venda Nova do Imigrante e presidente da Agrotures (Associação de Agroturismo do Estado do Espírito Santo), se aplica com perfeição à Vinícola Fin, localizada na altura do quilômetro 508 da Rodovia BR 285, no município de Entre-Ijuisa, a 38 quilômetros de São Miguel das Missões.

Nesse 13 de agosto, felizmente uma segunda-feira, à porta do estabelecimento está o proprietário Jorge Fin, que à semelhança de Carnielli é descendente de italianos da região do Vêneto. As paredes do local estão cobertas com fotografias antigas, uma das quais do avô Luigi, que chegou em 1876 vindo da comuna de Arzignano.

Seis hectares plantados de videiras, na região até pouco tempo dominada pela soja, envolvem o recinto onde ele produz vinhos finos e de mesa em imensas pipas de aço inoxidável, tirando proveito do fato de que as uvas ali são colhidas 40 dias antes das serras gaúchas. Jorge deixou uma segura carreira na área de marketing de um banco para empreender o negócio, resgatando a viticultura praticada por seus antepassados.

Enquanto os participantes da expedição degustam com prazer os diferentes tipos de vinhos, acompanhados por copa, queijo, salame e pão produzidos na propriedade, ele fala com evidente orgulho da ótima safra de 22 graus de açúcar de 2009, resultado de 90 dias de sol sem chuva na época da colheita. Graças a essa providência divina, vinhos como o Ancellota, de coloração vermelho rubi intenso e aroma frutado de amora, cereja, com notas de amêndoa, caramelo e café torrado, poderão amaciar seus taninos e envelhecer com calma.

Lá fora, as videiras já podadas estão prestes a serem amarradas com vime para ficarem firmes para a brotação de folhas que começará na primavera. Esse é apenas um dos cuidados da plantação biodinâmica, um método orgânico inspirado no filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925) conhecido pelo respeito ao meio ambiente.

De cabelos loiros curtos e um eterno sorrido nos lábios, Jorge alerta os comensais para guardarem um espaço para o almoço. Quem o está providenciando pessoalmente é sua esposa, Eliana. Pequena e magrinha, ela transita pelo espaço com a leveza de uma fada e logo oferece um delicioso cappeleti in brodo, caldo que cozinhou lentamente por oito horas. Seguem-se pasta verde e galinha criada no milho, regados a pão caseiro e, para finalizar, uma seleção de doces feitos na propriedade, como o imperdível sagu cozido no suco de uva da casa.

Ao final do banquete, as pessoas circulam espontaneamente pelo local, como se estivessem na casa de um parente querido. O estudante de Letras da Universidade de São Paulo, Ivan Pasta Zanni, 23, com mais de 1m70, magro, de traços finos e sempre pronto a fazer comentários gentis aos integrantes da expedição, observa tranquilamente o lago com seu pedalinho atracado na margem. Ivan viaja com o irmão, Vítor, 20, aluno do curso de Química da USP e a mãe, a historiadora Iara.

Na hora da saída, Jorge lamenta que não teve tempo de engarrafar a safra de grapa, a aguardente feita de uva. Felizmente os produtos podem ser adquiridos pelo site http://www.vinicolafin.com.br.

Fotos e texto: Monica Martinez

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Projeto Missões - Parte 3: São Miguel das Missões

Após o café da manhã no Wilson Park Hotel, os integrantes da expedição embarcam no ônibus com destino ao sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo. Como o local não fica distante, algumas pessoas decidem caminhar até lá, chegando à entrada quase ao mesmo tempo em que as demais descem do veículo.

O sítio é tombado desde 1983 pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Da entrada se vê o Museu das Missões, pequena construção idealizada pelo arquiteto Lúcio Costa para abrigar as imagens sacras feitas pelos guaranis.

Em frente ao museu, uma cena de tirar o fôlego: as ruínas de São Miguel. A parte frontal ainda está preservada, permitindo desfrutar a grandiosidade da igreja construída de 1735 e 1745. O resto da redução tem de ser imaginado a partir das plantas conservadas no museu e das imagens que a guia construirá com palavras.

Como as demais, essa missão foi construída sob orientações dos jesuítas, ordem religiosa fundada em 1534 pelo basco Inácio de Loyola.

Antes de se tornar religioso, Loyola tinha sido militar e sua ordem primou pela organização e obediência à hierarquia. A Companhia de Jesus logo atrai um pelotão de padres devotados à glória divina, opositores da escravidão e incentivadores dos estudos e das artes. A cruz missioneira postada em frente ao museu remete à união simbólica entre a espada e a fé cristã.

Os jesuítas se espalharam pelo mundo. Alguns, como Francisco Xavier, nunca chegaram ao seu destino, a China. Outros tiveram melhor sorte, como o padre Cristovão de Mendonça, que em 1632 fundou São Miguel, a primeira missão jesuítica no que hoje é a área do Mercosul. Seguiram-se seis outras: São Francisco de Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga, seguidas de São João Baptista, São Lourenço Mártir e Santo Ângelo Custódio, formando os chamados Sete Povos das Missões.

Rodeada dos integrantes da expedição, a professora de história da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Nadir Damiani, explica que os aldeamentos, construídos a partir de plantas feitas pelo jesuíta e arquiteto Gian Battista Primoli, eram muito semelhantes.

A igreja ficava no coração da planta. Ao lado direito dela erguiam-se casas para viúvas, órfãos com menos de 7 anos e “solteironas” com mais de 15 anos, que eram amparadas pela comunidade. Do lado esquerdo, as salas de aula da escola (20 alunos por classe, formada apenas por meninos), a casa dos padres e as oficinas. A música era muito incentivada e a orquestra local chegou tocar em Madri. Logo atrás da igreja ficavam a horta e o pomar. Havia frutas em abundância: laranjas, figos, romãs – então um símbolo de prosperidade.

Nadir aponta para a grande praça quadrada gramada que se vê em frente à igreja. “Ela abrigava festas religiosas, peças e jogos esportivos”, explica a historiadora. Ao redor da praça ficavam as habitações, construções sólidas em pedra de arenito como a igreja e demais edifícios. Cada redução abrigava até 6.500 habitantes (só para se ter uma ideia, a cidade de São Miguel das Missões de hoje possui 7.500 moradores).

A comunidade era auto-sustentável e próspera: os povos das missões plantavam erva-mate, milho, mandioca, batata, frutas, legumes, fumo, algodão, produzia mel, vinho de uva e de laranja. Os índios fiavam e teciam o algodão. Criavam gado, processando o couro, o sebo, fazendo botões, pentes e cabos de armas dos chifres. A moeda praticamente não existia e as trocas eram feitas em mercadorias. O excedente que não era consumido era usado para pagar os impostos à coroa espanhola e usado no escambo por artigos não produzidos localmente, como agulhas e livros. O que sobrava era dividido entre os moradores.

De cabelos curtos cor de cobre e traços decididos, Nadir chegou a São Miguel há 28 anos para estudar. Nunca mais deixou o lugar. A coordenadora do Centro de Cultura Missioneira devotou sua vida ao tema e fala apaixonadamente sobre o sistema político que envolvia a igreja que se ergue imponente ao fundo da praça. Ela aponta o museu. “Lá ficava o Cabildo, a sede administrativa da redução, uma espécie de prefeitura cuja gestão era feita pelos índios”, diz.

Passar pela sua porta principal da igreja é voltar ao século 17, quando o território era espanhol devido ao Tratado de Tordesilhas. Para ocupá-lo e catequisar os guaranis da bacia do Prata, padres jesuítas ergueram ao longo dos séculos 30 reduções.

Nadir é ativa na ajuda aos guaranis remanescentes do Estado, alguns dos quais vendem ao redor do museu seu belo artesanato, como as esculturas em madeira de quatis típicas da região. Silenciosos e com blusas de frio que já viram épocas melhores, eles são a triste herança da guerra guaranítica iniciada pouco depois do Tratado de Madri, de 1750, quando Portugal reclamou as terras para si. Só as terras, sem os padres nem os índios nelas.

O brado do líder guarani, Sepé Tiaraju, “essa terra tem dono”, não foi suficiente para espantar as tropas luso-espanholas. Nem o grito dos 30 mil índios que viviam nos Sete Povos. O espetáculo Som e Luz, exibido diariamente às 19h (no verão às 21h) desde 1978, permite intuir o massacre sofrido pelas populações que habitavam o local. Mais explícito e igualmente belo, o filme hollywoodiano As Missões, de 1986, com Jeremy Irons e Robert de Niro, também.

Ao fim do espetáculo de 40 minutos, os integrantes da expedição caminham silenciosamente de volta para o ônibus. As palavras são desnecessárias.

Fotos e texto: Monica Martinez

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Projeto Missões - Parte 2: Uma viagem gastronômica pelo sul


O sono é suave na primeira noite passada no embalo do ônibus que segue para Curitiba pela BR-116. Tanto que muitos passageiros nem notam a parada feita durante a madrugada. Mas ninguém perde o farto café da manhã no restaurante Américan Grill, em União da Vitória (já distante 233 quilômetros da capital do Paraná. É ali que conhecemos pela primeira vez um docinho típico da região de nome curioso. Trata-se de uma tira de massa frita açucarada levemente torcida chamada de... cueca-virada.

Pelas janelas do ônibus, ainda bastante embaçadas pela neblina, o cenário muda aos poucos: as verdejantes colinas do Estado de Santa Catarina vão dando espaço aos campos conforme chegamos a um ensolarado Rio Grande do Sul pela BR-135. Uma surpresa nos aguarda para o almoço: o restaurante Tia Lili, na cidade de Marcelino Ramos.

Correndo de um lado para outro, tia Lili atende pessoalmente os clientes habituais e também os paulistas forasteiros. “Sou filha de italianos e franceses”, explica, enquanto passa oferecendo polenta frita cremosa e fortaia, omelete de queijo de origem italiana. A mesa é farta, com vários tipos de salada, arroz, feijão e massas. À parte, um bufê de assados tenros e a fantástica abóbora consumida localmente, que é deixada de molho na água e açúcar, fervida no dia seguinte e, finalmente, assada – o que a deixa com uma camada externa crocante e o interior macio.

Mas o destaque do restaurante Tia Lili é uma salinha à parte, com doces caseiros de todos os tipos imagináveis, uma união feliz entre as tradições italiana, alemã e portuguesa. Ambrosia, apfelstrudel de variados tipos, pudins... Quitutes que fazem o professor José Eugenio de Oliveira Menezes arregalar os olhos de satisfação. É apenas o começo de uma jornada gastronômica que levará muitos dos integrantes da expedição a trazer vários quilos a mais para São Paulo.

Ao cair da noite, a chegada a São Miguel das Missões é tranqüila. O caminho até a entrada do grandioso Wilson Park Hotel é charmosamente iluminado. Todos os quartos ficam num primeiro andar que pode ser alcançado por uma rampa suave. Pela primeira vez nota-se a determinação de um descendente de japoneses nascido em 1928, Koumei Mitsuzawa, que, aos 81 anos, anda para lá e para cá com sua incansável bengala e será motivo de inspiração para os mais jovens antes de se queixarem de uma dor aqui ou outra acolá.

Dentista concursado e um bom contador de piadas, seu Koumei trabalhou na Caixa Econômica Federal até se aposentar, numa época em que tais cargos eram motivo de orgulho e praticados com honra e ética, como deve ser.

Texto e foto: Monica Martinez

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Projeto Missões - Parte 1

Onze de julho, sábado, 21h30. O tempo está frio e na Rua Borges Lagoa, na Vila Clementino, em São Paulo, há várias pessoas de casaco em torno do ônibus parado na ampla calçada, bem em frente ao Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo. O Sinpro, claro, está fechado a esta hora da noite. Mas boa parte das pessoas que se movimentam no local está relacionada de alguma forma à entidade que abriga professores que atuam em escolas particulares paulistas.

Logo uma das pessoas se adianta em nossa direção. É Marcos Mituzawa, da Phylos Cultural, empresa que está organizando o projeto Missões, que move aquelas 38 pessoas a deixar seus lares quentinhos e embarcar num ônibus com destino ao Mercosul. O professor Marcos é descendente de japoneses, como uma parte significativa do grupo – o que sinaliza uma viagem tranqüila e com todos ciosos do horário, impressão que mais tarde se verificará correta. Ensina física e matemática há 30 anos em uma escola privada e, nesse meio tempo, granjeou a confiança das freiras de tal forma que elas o apóiam quando precisa se ausentar por alguns dias das classes de aula para conduzir grupos de estudantes, principalmente para estudar o do ciclo do ouro em Minas Gerais.

Com o organizador viaja sua família, formada pela também professora Magali, que apesar de graduada não exerceu a profissão para cuidar das duas filhas do casal. A mais velha, Thaís, tem 14 anos e é tranquila, bela e discreta como uma delicada boneca de porcelana japonesa. A mais nova, Camila, tem 11 anos e está mais para uma japonesinha contemporânea de Tóquio moderno, daquelas que tingem o cabelo de cores chamativas e brigam pela implantação do acordo ambiental de Kyoto – embora, por ser ainda muito jovem, por enquanto ela se limite a preocupar os pais com questões menores, como correr atrás de cachorros e encharcar o tênis ao pular em poças de lama.

Enquanto Magali confere os acertos financeiros de última hora feitos pelos participantes, Marcos ajuda os dois motoristas de sua confiança a colocar as pesadas malas no bagageiro do Marco Polo 2008, uma Ferrari dos ônibus de viagem de dois andares.

Pouco depois do horário previsto, o ônibus parte para a longa viagem de 24 horas com destino a São Miguel das Missões, onde estão as espetaculares ruínas jesuíticas de São Miguel das Arcanjo.

Texto: Monica Martinez