segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Manaus: uma Amazônia que faz pensar

Manaus é, decididamente, uma joiazinha encravada na Amazônia. O avião vai chegando e o verde enchendo os olhos -- ainda que muitas clareiras emerjam como cicatrizes numa floresta que poderia estar intocada. Mas o que está intocado hoje em dia?

O manauense é o primeiro a dizer que, por ser uma ilha cercada de floresta por todos os lados, a cidade é segura. De fato, mesmo no centro, as pessoas são gentis e param para explicar ao turista os caminhos para se chegar lá ou acolá.

Teatro Amazonas, herança do ciclo da borracha
O Teatro Amazonas talvez o mais conhecido ícone local, guarda a pompa, em frisas nobres e piso de tábua corrida, de um século XIX onde a cidade trazia companhias de ópera para desfrute dos barões da borracha. Os barões se foram há muito tempo, mas ele continua lá, altivo, firme e forte. A praça que o circunda é uma das mais deliciosas experiências de flanar e, também, degustar os sabores locais, do sorvete de frutas típicas ao tacacá da Gisela, um quiosque onde se serve o bem temperado caldinho típico com camarão seco e jambu regado à tucupi (um molho extraído da mandioca brava), que é servido numa graciosa cabaça com cestinha.

Imperdível: o petit gateau de cupuaçu
com sorvete de tapioca do Banzeiro
Opções para comer bem, aliás, não faltam, graças aos cardápios fartos em peixes nativos como a costelinha de tambaqui. Imperdível, novamente, é o Banzeiro, do chef  Felipe Schaedler, o Alex Atala local, onde se degusta um senhor pirarucu à belle manière que cai muito bem com um chardornnay geladinho. Já o petit gateau de cupuaçu é algo próximo da ambrosia divina.



Ir para a Amazônia e não nadar em rio é como ir à Roma e não ver o Papa. Se rio ali é o que não falta, gostoso mesmo é mergulhar no Negro, majestoso com suas águas lentas e escuras. Os guias turísticos oferecem o nado com o boto, que é algo imperdível, mas para bravos. É como se banhar nas águas do inconsciente, pois você não sabe em que hora o mamífero vai emergir da água escura ao seu lado. Ainda que manso, a textura de couro do boto é decididamente uma experiência tátil única.

A aldeia Dessana
Claro, ir à Amazônia e não ver índio é como ir à Roma e... bem. Visitar a Aldeia Dessana é uma experiência encantadora. O artesanato é de primeira, como os colares da Umussy. Diakuru vem correndo ao chamado de Yuphako, como todo bom marido, para falar da máscara linda que faz. E o pajé Raimundo Kissibi Kumu, ciente da pressa do turista moderno, faz um ritual rapidinho, de agradecimento às quatro direções. Aliás, no perfil do Facebook, ele aparece em duas versões: o pajé como il faut e o sujeito elegante, de blazer, que volta e meia é convidado para representar sua etnia fora do país. A última, se não me falha a memória, foi em Paris.

Yuphako e Diakuru :
artesanato de primeira 
Pergunto para Yuphako onde fica o mandiocal e ela me espanta, dizendo que os índios compram a farinha de mandioca em Manaus. Depois que a perplexidade passa, me pergunto por que raios eu esperava que eles plantassem roça se a gente também deixou de fazer tanta coisa, de pregar botões a cuidar de filho e fazer pão. Por que os índios teriam de continuar eternamente à imagem e semelhança de nosso imaginário, enquanto a gente se perde na civilização contemporânea, esquecidos de fazer qualquer coisa do princípio ao fim?

No avião de volta, passada a meia-noite, felizmente tudo é escuridão, para que não doa na retina as imagens das clareiras e não pese no coração a dos povos que se vão. Felizmente emerge na mente a imagem dessas novas misturas, muito humanas, que estão se formando. O futuro, pelo jeito, é hoje.

Monica Martinez
Setembro de 2013

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O divã de Freud

Fui sem muitas expectativas ao Freud Museum, em Londres. Eu já havia visitado o Museu Freud da 19 Bergstrasse, em Viena, onde o fundador da psicanálise morou por 47 anos – do início de seu casamento com Martha, em 1841, até quando conseguiu deixar o país com a família, em 1938, devido à ocupação da Áustria pelos nazistas.

O Freud Museum fica na 20 Maresfield Gardens, em Hampstead, ao norte do centro de Londres. Como tudo o mais na cidade, o acesso ao endereço é simples, basta descer na estação Finchley Road do metrô ou, como eles chamam aqui, underground. Há áudios e material em bom português, o que facilita bastante a vida dos brasileiros.
Trata-se da casa onde Freud morou por um ano, de 1938 até a morte, em 1939 – há 16 anos ele já sofria de câncer no palato. Aqui finalizou o livro Moisés e o Monoteísmo, bem como seu trabalho final, O Esboço da Psicanálise, uma espécie de síntese de sua obra. A casa foi preservada exatamente como na época da vida de Freud – com todos os móveis trazidos da Áustria graças a um oficial nazista simpatizante da psicanálise – por sua filha, Anna. Ela, que seguiu a carreira do pai, teve o endereço como residência até sua própria morte, em 1982, quando em testamento dedicou o espaço à criação de um museu. 

Não há dúvida: o ponto central da residência é o estúdio de Freud. Voltei a ele por três vezes, pois mais parece uma sala de colecionador de arte antiga do que um consultório médico. O psiquiatra era apaixonado por antiguidades, em particular egípcias e romanas, e o local transpira esta paixão. O estúdio é composto por quase 2 mil itens, de livros a quadros e fotografias, como a de seu mentor, Jean-Martin Charcot (1825-1893), neurologista francês  cujo trabalho motivou Freud a optar pela Psiquiatria.
 
Contudo, o principal ponto focal deste estúdio, a meu ver, é a insuspeitada quantidade de estatuetas, rigorosamente alinhadas na mesa, como ele de fato as usava. É simplesmente hipnótico -- difícil parar de observá-las. Há duas estatuetas em particular que são interessantíssimas. A primeira é uma estátua branca de um babuíno, de um palmo, que simboliza o Deus egípcio do conhecimento, Tot.  A segunda é a figura de um chinês, símbolo da sabedoria. Sempre que chegava ao consultório, Freud tinha o ritual de conversar com ela, como com um velho amigo.
O divã original também está lá. Ao seu lado esquerdo, a cadeira verde onde o doutor Freud atendia seletos quatro pacientes neste ano final de sua vida. Manter a cadeira fora do campo de visão do paciente foi a solução que o médico encontrou para não ter os olhos fixos dos clientes nele, durante todo o dia, uma vez que no auge da carreira chegava a passar dez horas em sessão.

Na visão de Freud, a relação entre a Psiquiatria e a Arqueologia estava no fato de que ambas lidavam com coisas esquecidas, que tinham sido preservadas justamente porque haviam ficado soterradas.  Freud, convém lembrar, foi um dos mais importantes pensadores do século XX justamente porque  introduziu vários conceitos na ciência, como o de inconsciente pessoal, que para ele consistia em conteúdos reprimidos pela consciência.
Ao sair, a sensação de que este pequeno grande museu é uma visita imperdível para quem está de passagem pela capital inglesa. Para saber mais, clique no site do Freud Museum.

Texto Monica Martinez
Fotos: Freud Museum

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lançamento de Professor de Ilusões, de Monica Martinez


Tenho o prazer de convidá-los para o lançamento de meu novo livro de ficção, Professor de Ilusões (Prumo). Será amanhã, 21/11, quarta-feira,  das 17h30 às 22h, na Fnac Paulista (Av. Paulista, 901 – próximo à estação Brigadeiro do metrô). 
 
Agradeço desde já pela presença e divulgação.
 
Breve apresentação do livro:
 
Com um abraço,
Monica
- – - – -
Profa. Dra. Monica Martinez
Programa de Mestrado em Comunicação e Cultura
Universidade de Sorocaba – UNISO



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Viena: um roteiro a ser descoberto


Venus de Willendorf:
achada às margens do Danúbio
há 25 mil anos
Viena é um roteiro ainda a ser descoberto pelos turistas brasileiros. A capital da Áustria compartilha a organização com sua companheira de fronteira, a Alemanha. Tudo funciona como um relógio, a começar pelo sistema público de transporte.  Contudo, a localização na Europa – mais ao sul – e a herança da religião católica emprestam um brilho todo próprio ao povo austríaco.  
Há também elos que ligam diretamente a história brasileira à vienense. Afinal, a primeira esposa de D. Pedro I, dona Leopoldina, pertencia à casa dos Habsburgos, na época em que o Império Austro-Húngaro rivalizava em poder com outras potências europeias, como a francesa e a inglesa. Quem visita o fantástico quarteirão dos  museus, com seus edifícios impressionantes, pode imaginar o baque que nossa imperatriz sentiu ao chegar à provinciana corte carioca no início do século XIX. Nem seu bem intencionado desejo de incrementar o acervo de história natural dos museus austríacos foi suficiente para livrá-la da morte precoce devido ao desgosto pelas escapadelas românticas de nosso primeiro imperador. Seu amor pela ciência, contudo, foi herdado pelo nosso segundo e último imperador, D. Pedro II, ele também um incentivador das artes.

Os museus vienenses são um capítulo à parte. O complexo do Museums Quartier Wien é o maior centro cultural do mundo. Gosto particularmente do acervo do Museu de História Natural (Naturhistorisches Museum). Ele foi inaugurado em 1889 e não há nada muito interativo nele, aliás a experiência de ver um acervo à moda antiga é de todo interessante. É lá que está a roliça e pré-histórica Venus de Willendorf (acima). Esculpida há cerca de 25 mil anos, a estatueta com pouco mais de 11 cm é considerada uma das primeiras representações do feminino da saga humana.

Neue Burg: um "puxadinho" imperial que não chegou a
ser usado por hóspedes devido a queda dos Habsburgos
Há um combo de tickets que permite ver o bem abastecido Museu da História da Arte (Kunsthistorisches Museus), o Neue Burg (o novo anexo feito no século XIX ao Palácio Imperial Hofburg, que tem coleções impressionantes de armas e armaduras, bem como um acervo de instrumentos musicais antigos de peso -- lembre-se que estamos falando da terra de Mozart e Schubert) e os Tesouros dos Habsburgos (Schatzkammer).  
Deste último museu, gosto particularmente da coleção de relíquias, acumulada durante os séculos de domínio dos Habsburgos. Lá você pode ver um pedaço da cruz onde Jesus foi crucificado, um dente de João Batista e outro de São Pedro, entre outras peças. Se elas são verdadeiras? Isto já é outra história... O fato é que muitas delas foram veneradas desde o século XIII pelos cristãos. 
Outra opção interessante é visitar a Berggasse 19. Quem leu algo sobre Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise, sabe que foi neste endereço – hoje transformado no Freud Museum – que ele atendia seus clientes até ter de se mudar para Londres por conta da Segunda Guerra Mundial.

Outra boa pedida é visitar o prédio principal da Universidade de Viena, onde professores como Freud revolucionaram as ciências humanas  -- foram nove prêmios Nobel até a Segunda Guerra Mundial, quando um quinto do corpo docente foi mandado para o exílio ou o extermínio.
Não estranhe: os austríacos tomam o vinho branco
com água gaseificada para deixá-lo mais suave
Depois de se nutrir de cultura, é hora da cuidar do estômago -- que ninguém é de ferro. Nos subúrbios vienenses, onde antigamente ficavam fazendas, hoje são encontrados os heurigers, locais onde se degusta a excelente comida típica, bem como o vinho branco produzido na propriedade. Um detalhe: os austríacos têm o hábito de consumir o vinho branco local com água gaseificada.

Seja você enólogo ou não, não perca o passeio pelo vale do Wachau, onde produtores de vinho fazem degustações do produto. Uma dica fantástica é o Winery Bike Tour (WWW.viennaexplorer.com), um passeio inesquecível de bicicleta pelos aromáticos vinhedos. Apenas certifique-se de estar em boa forma antes de contratar o serviço, pois você vai precisar pedalar bastante para chegar ao final.
 No quesito gastronômico, não deixe de experimentar o Wiener Schnitzel, um filé de porco empanado, fininho e crocante. Acredite: depois dos tempurás japoneses, é a fritura mais sequinha que você encontrará na face da terra! Finalmente, na hora de trazer souvenirs, não se esqueça de entrar em qualquer supermercado. O chocolate Mozartkugeln não é caro, não pesa na mala, aguenta firme o calor e ainda faz a alegria de quem o recebe.

Monica Martinez

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mama África na visão de Karen Blixen

Confesso que não me apaixonei quando vi o filme Entre Dois Amores, de Sydney Pollack (1985), mesmo que ele tivesse atores do quilate de Meryl Streep, Robert Redfor e Klaus Maria Brandauer.

Do pouco que me lembro, tratava-se da história de uma baronesa dinamarquesa entediada, seu marido -- um aristocrata dinamarquês caladão pouco afeito a pegar no pesado e fã de safaris -- e o amante deka -- um aristocrata inglês comedido nas palavras pouco afeito a pegar no pesado e fã de safaris. A trama da europeia que tinha de assumir a coordenação da lida na fazenda tinha como pano de fundo as fantásticas paisagens quenianas, daquelas que os olhos alcançam tão longe que dá a sensação de se estar no próximo do mar.

Contudo, me apaixonei perdidamente pelo livro que deu origem à película, publicado pela dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962) em 1937. A obra, felizmente, não se limita à trama amorosa entre a escritora, seu marido -- o barão sueco Bror von Blixen-Finecke, de quem se divorciou em 1925 --, e seu amante, o piloto do exército britânico e caçador profissional Denys Finch Hatton, com quem viveu de 1926 até a morte dele num acidente aéreo, em 1931.

Ao contrário. Se não me falha a memória, o nome de Bror sequer é citado pela autora, mais conhecida pelo pseudônimo de Isak Dinesen. Já os últimos dias de Finch Hatton ganham um ótimo capítulo no livro.

O que se revela diante de nossos olhos é, antes, um relato antropológico amoroso e arguto sobre os quicuios, os massais e os somalis, isto é, os povos nativos, mas também sobre os europeus que lá estão. O ponto de vista da autora, felizmente, não é o eurocêntrico, mas, antes, uma tentativa aberta de comprender as diferentes formas de ver o mundo.

Só isto já valeria a leitura. Mas há mais. Blixen escreve muito, muito bem. Compartilho um dos trechos que mais me encantaram no qual, sem mencionar a morte da cultura que ocorria diante de seus olhos, ela faz justamente esta reflexão simbólica ao relatar o funeral de um chefe quicuio:


Tradicionalmente, os quicuios não enterram seus mortos e preferem deixá-los sobre o solo, para que sejam devorados pelas hienas e pelos abutres. Tal costume sempre me encantara, pois imaginava que seria muito agradável ser colocada sob o sol e as estrelas e, depois, ter os ossos completamente descarnados e limpos com rapidez e precisão. Era um modo de nos fundirmos na natureza e virarmos mais um dos elementos comuns de uma paisagem. (...)

Kinanjui, porém, (...) seria sepultado. Achei que os quicuios haviam concordado em abrir uma exceção à sua regra pelo fato de o morto ter sido chefe. Talvez estivessem preparando, para a ocasião, uma grande reunião ou cerimônia tradicional. (...)

No entanto, o funeral de Kinanjui foi uma cerimônia completamente européia e eclesiástica. Ela contou com a presença de representantes do governo, com o comissário distrital e duas autoridades vindas de Nairóbi. Mas o dia e o local foram dominados por religiosos, e a planície, sob o sol vespertino, ficou pontilhada com suas vestes escuras. (...)  Se a intenção (...) era impressionar os quicuios com o sentimento de que ali haviam conquistado o falecido chefe, elas foram bem-sucedidas. (...)

O corpo de Kinanjui foi trazido da missão numa camionete, e colocado ao lado da sepultura. Não creio que, em toda a minha vida, eu tenha ficado mais decepcionada e chocada do que no momento em que o vi. Ele fora um homem corpulento, e eu me lembrava dele tal como o vira tantas vezes (...). Mas o caixão onde fora colocado era quase uma caixa quadrada, que certamente não media mais do que um metro e meio. (...) como será que haviam conseguido enfiar Kinanjui ali e como estava acomodado? (BLIXEN, 2005, p. 383-384).


A tradução de Cláudio Marcondes, felizmente, faz juz à obra.


Avaliação

***** Leitura Altamente Recomendável

Título: A Fazenda Africana
Autor: Karen Blixen
Tradução: Cláudio Marcondes
Formato: 227 x 164 x 28 mm;
Páginas:  448
Editora: Cosac Naify

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Em Trânsito: um ensaio sobre narrativas de viagem

Em Trânsito: um ensaio sobre narrativas de viagem, é o mais novo livro do jornalista gaúcho Renato Modernell.

O autor é a prova viva do trânsito literário. Já fez ficção, como Viagem ao Pavio da Vela (Record), entre outros, e também atuou no jornalismo, como editor de publicações de viagem, caso da Revista Terra.

Nos últimos anos, passou a escrever literatura, em suas palavras, em doses cada vez mais homeopáticas, e a dedicar-se prioritariamente ao ensino (é docente da Universidade Mackenzie) e à pesquisa. A presente obra, por exemplo, é sua tese de doutorado, defendida pela mesma instituição, agora disponibilizada no formato livro.

Neste lançamento, o autor transita pela literatura e pelo jornalismo por meio de três viajantes que relataram suas observações e impressões em livros: um jornalista, o americano Nick Tosches, e dois italianos, o escritor Antonio Tabucchi e o jornalista Tiziano Terzani.

O prefácio da obra, que pode ser lido abaixo, cedido gentilmente por Modernell, é escrito pelo professor Edvaldo Pereira Lima, ex-docente do programa de pós-graduação da Universidade de São Paulo. Lima é um dos pioneiros no país dos estudos de Jornalismo Literário, modalidade jornalística que tem nas narrativas de viagem um de seus gêneros.

Vale a pena a leitura da obra, inserida num segmento onde são poucas as reflexões teóricas sobre as narrativas de viagem. Aliás, um gênero que, como pontua Lima, é tão adequado e aberto à quem deseja ler e praticar narrativas de qualidade. 

Monica Martinez


Avaliação


**** Leitura Recomendável

Título: Em Trânsito: um ensaio sobre narrativas de viagem
Autor: Renato Modernell
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 165
Editora: Mackenzie
Onde comprar: na Livraria Mackenzie (campus Higienópolis/SP) ou por pedido direto ao distribuidor (tel. 11 3207 7099 e 0800 014 1963 ou e-mail cep@cep.org.br).

Prefácio

Viagens, textos, interfaces,
por Edvaldo Pereira Lima

As viagens têm um valor arquetípico. Especialmente as mais ousadas, para lugares distantes, de caráter exploratório. São uma força que move homens e mulheres de todos os tempos e de todas as partes a saírem da zona de conforto para se arriscarem na experiência do diferente, do estranho, do novo.

Viajantes desse quilate são movidos mais do que pela simples curiosidade. São impelidos por um movimento psíquico, profundo, que fazem um Richard Burton arriscar-se à degola, explorando sob disfarce a Meca reservada exclusivamente aos muçulmanos em peregrinação, proibidíssima aos infiéis. Que fazem um Amyr Klink abandonar o quase paraíso tropical de Parati para colocar a pele à dura prova nas geladíssimas águas solitárias da Antártica. Suas histórias são impulsionadas pelo motor interno da expansão da consciência, que alarga o alcance da nossa noção de quem somos, de quem é o outro, do que é o mundo, do que compõe esse oceano de diversidades de múltiplos níveis e dimensões onde estamos inexoravelmente imersos, como partículas supostamente inteligentes do grande mistério da existência.

Por isso as viagens ocupam um lugar tão privilegiado no imaginário de todos os povos. De todas as épocas. Por isso a origem e a força das narrativas de viagens.

A viagem é jornada. E a jornada é do herói. Há intensidade dramática, provas e desafios, no deslocamento do herói pelos seus mapas de aventura, o risco de aniquilamento pairando no ar como possibilidade remota ou probabilidade plausível. Cabe ao herói responder à demanda do seu santo graal particular no nível que lhe compete, sendo a jornada suprema a realização definitiva do seu Self, talvez, a reorganização da psique em torno do seu Eu transcendente, o ego domesticado ao seu papel importante, mas secundário.

Essa é a promessa camuflada, discretamente escondida nas dobras visíveis ou não das narrativas de viagens. O fascínio por elas começou há muito. Está nos livros sagrados. Moisés conduz seu povo pelo deserto e pelas águas abertas do mar, rumo à Terra Prometida (Bíblia). Está nas mitologias. Ulisses parte para a viagem épica de retorno ao lar, em Ítaca, dez anos de aventuras, depois dos não menos longos dez anos da guerra de Tróia (Odisséia).

Configurou-se como elemento cultural mais mundano, talvez, com a história do jovem veneziano que aos 17 anos parte para a longa epopeia pelas terras longínquas do Oriente. Depois de 24 anos de jornada, de regresso ao ponto de partida, plasma por escrito sua história, com a ajuda do escritor Rutischello de Pisa. As Viagens, de Marco Polo, torna-se o que se pode chamar de best-seller da era medieval europeia, se exercemos um pouco de imaginação adaptativa.

Em 1299, ano em que o livro é escrito, talvez, não existe ainda esse invento gráfico revolucionário, a imprensa, que só vai acontecer por volta de 1439, graças ao alemão Johannes Guttenberg. Mesmo assim, alcança o que se pode chamar de sucesso, no contexto da época. Depois da imprensa, As Viagens multiplica-se, cativando gerações. É de fato um dos maiores best-sellers também da história editorial moderna.

O fascínio duradouro de Marco Polo carrega a semente que todo bom editor de turismo e viagens do jornalismo moderno entende bem. Parte do público que consome as inúmeras publicações especializadas hoje existentes não tem condição de viajar para os destinos glamorosos que seduzem o olhar nas capas coloridas portando Dubai, Aspen ou os castelos de fadas nos contrafortes alemães. Mas consome o sonho. Viaja simbolicamente.

O editor do espanhol Álvaro Nuñes Cabeza de Vaca talvez já intuísse a essência desse fascínio, quando publica outro clássico de viagem importante de ser destacado, numa rápida linha do tempo da história do gênero. Em 1542 vem a público seu Naufrágio, relato da aventura pela qual passa quando seu navio a caminho do Novo Mundo afunda em tempestade terrível, lançando-o nas costas de uma terra desconhecida, em 1527. Pensa tratar-se de uma ilha. Descobre, em meio a sofrimentos de toda ordem, que na verdade está em uma grande massa de terra continental. Conseguindo relacionar-se com nativos, Cabeza de Vaca salva a pele passando-se por curandeiro.

A terra é o que identificamos hoje como a Flórida. Empreende então uma longa jornada exploratória terrestre, atravessando o sul dos Estados Unidos, rumo à costa oeste. Oito anos depois chega ao México, então território espanhol. Salvo, retorna à Espanha, notabilizando-se com seu livro, trampolim para outras aventuras, como a descoberta, para os olhos europeus, das cataratas de Iguaçu.

A expansão das narrativas de viagens continua nos séculos seguintes, ganhando contornos que as modernizam. No século XVIII, o escocês James Boswell marca um pioneirismo bem-sucedido. Até então, os textos de viagens são produzidos por exploradores, aventureiros, militares, sacerdotes, agentes civis das potências colonialistas europeias. São primeiramente personagens e testemunhas de histórias, escritores por acaso.

Boswell, porém, é o protótipo de outra estirpe: a de gente que viaja sem nenhum outro motivo a não ser explorar culturalmente novos cenários, e daí escrever sobre eles. Entre 1764 e 1765, Boswell sai do seu mundo insular, percorrendo o continente europeu. Dessa viagem resulta Ann account of Corsica, em 1768, que lhe dá a primeira instância de fama, pela crescente curiosidade inglesa pelo resto do mundo. Seu outro seu livro de viagem, Journal of a tour to the Hebrides, de 1785, também alcança sucesso.

Essas duas obras garantem-lhe também um lugar de honra na história dessa modalidade peculiar de jornalismo que combina a arte narrativa da literatura de prosa com o compromisso jornalístico em relação aos fatos reais: o Jornalismo Literário. Nada menos que Tom Wolfe, um dos seus grandes expoentes, atribui ao escocês o status de um dos predecessores da modalidade, e à narrativa de viagem uma das duas raízes históricas desse formato de expressão, em paralelo à cobertura de guerras.

Outros autores, em cada vez maior número, embarcariam nessa corrente de produção de narrativas não ficcionais de viagem. A tradição, renovada, chega aos nossos dias. Parte dessa produção pode ser considerada jornalismo literário de viagem, nome que atribuo a textos nitidamente marcados pelas características da modalidade, como a imersão, o estilo, a humanização, o emprego de recursos narrativos múltiplos, de um lado, mas atrelados ao compromisso de reprodução fiel da realidade, de outro. O autor que se preza, nessa categoria, não ficcionaliza eventos, cenas, personagens, falas.

Muitos dos grandes nomes do jornalismo literário praticariam a narrativa de viagem, como Jack London e George Orwell, mais distantes no tempo, Gabriel García Márquez, Joan Didion, Susan Orlean e Tiziano Terzani, em datas mais próximas de nossos dias.

A preferência é simples de se explicar: como a narrativa de viagem está associada ao imaginário popular mais metafórico e poético, menos linear e cartesiano, aceita-se com maior liberdade experimentos de estilo inconcebíveis no jornalismo cotidiano, o de hard news e informação noticiosa factual típica dos diários. Ao mesmo tempo, exatamente por essa expectativa favorável, o autor – especialmente o iniciante – de Jornalismo Literário pode lapidar seu talento em narrativas dessa natureza, antes de se dedicar a outros formatos – como a reportagem temática, o perfil – para os quais a tolerância ao desvio de padrões básicos é menor.

Outra linha de aproveitamento das viagens como eixo de abordagens narrativas cresceria com o tempo, especializando-se noutra direção, diferentemente do aproveitamento não ficcional.

A realização de viagens como elemento estratégico de produção ficcional parece ter alcançado consistência no século XIX, quando jovens aspirantes ao estrelato literário entenderam o potencial de sucesso reinante por trás delas. São dessa corrente os casos exemplares de Herman Melville, que em 1841 parte numa excursão de 18 meses a bordo de um navio baleeiro, experiência que lhe renderia a inspiração para seu clássico Moby Dick, e o de Joseph Conrad, que aproveitaria suas inúmeras incursões marítimas e fluviais como elementos para toda sua obra, com destaque para o clássico O coração das trevas.

Por essas duas direções clássicas das narrativas de viagens, prefiro referir-me a elas sob duas denominações identificadoras. As produzidas explicitamente como trabalhos de não ficção, no âmbito do jornalismo literário, chamo de jornalismo literário de viagem, como sinalizei antes. As ficcionais denomino simplesmente literatura de viagem.

Contudo, reconheço que as associações multidimensionais atreladas às viagens e por conseguinte as conexões algo difusas entre realidade e ficção, que podem ocorrer nos relatos, tornam o trabalho de classificação muito complexo, em algumas obras. Talvez essa complexidade esteja presente em livros de dois autores contemporâneos que contribuíram muito para a renovação da arte. Bruce Chatwin e Paul Theroux, ambos também ficcionistas, produziram monumentais obras não ficcionais, em essência, como O rastro dos cantos e O grande bazar ferroviário, respectivamente. Difícil é, porém, deduzir se há elementos ficcionais, leves que sejam. Onde está a fronteira entre a realidade e a fantasia? Questão espinhosa, pergunta inquietante.

Pois é esse um dos fios condutores subjacentes à oportuna reflexão de Renato Modernell, levando-nos para o universo da narrativa de viagem, tão pouco abordado no cenário acadêmico, no Brasil, em que pese sua importância. Aborda com elegância, uma pitada de humor e uma qualidade criativa bem-vinda, apropriada a um texto de estudo, a tarefa de colocar sob foco a interface entre jornalismo e literatura, presente nos relatos de viagens. Não se pode discutir esse ponto polêmico sem mirar também o par de opostos realidade/fantasia. Quem sabe, em algum nível, não são extremos de uma mesma onda interconectada para além das aparências?

A estratégia do autor consiste em debruçar-se sobre três obras de três autores distintos, representativos desse campo de possibilidades. Adicionalmente, pontuam a reflexão, aqui e ali, casos exemplares de outros autores, outras obras, no contexto da produção europeia, brasileira.

Completa o plano de ação o uso de metalinguagem. Pois em se tratando de um texto cujo centro é a viagem, nada como ser construído como tal. O convite é sedutor, tal como as mensagens da mídia que nos convidam para nos lançarmos mundo afora em busca de aventuras em destinos distantes. Aqui, a aventura é igualmente empolgante, mas de outra natureza. E o autor é o nosso guia de descobertas.

****

Edvaldo Pereira Lima, professor da Universidade de São Paulo, cofundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário – www.abjl.org.br -, jornalista, escritor, considera-se cidadão do mundo, viajante por natureza. Residiu em vários países, foi editor de turismo e dentre as suas obras, produziu um livro de viagens sobre a Colômbia.





domingo, 31 de julho de 2011

Narrativa de viagem à italiana

Sardenha como uma Infância, do italiano Elio Vittorini (1908-1966), não é um livro sedutor, daqueles que impressionam à primeira vista. Aliás, por ser da editora Cosac Naify, pode-se até dizer que é uma obra despojada. São 128 páginas, apenas quatro delas ilustradas com fotografias antigas em preto e branco.


Começa-se a leitura sem grandes expectativas, até porque a estrutura de 43 capítulos pequenos – inovadora quando ela foi escrita, em 1932-1933 – flue familiar aos olhos do leitor contemporâneo, acostumado aos relatos curtos da internet.

A partir daí, o livro realiza, diante de nossos olhos arregalados, aquele prodígio da transmutação reservado a atores excepcionais. Vistos de perto, são pequenos, mas, observados no palco ou nas telas, crescem enormemente.

A obra é uma narrativa de viagem, publicada na coleção Companheiro de Viagem. Nela, o escritor siciliano comenta de forma aparentemente despretensiosa sua viagem por outra ilha da bota, a Sardenha. Suas descrições são sintéticas, suas impressões acuradas, sua escrita impecável. Veja esta frase sobre a ilha:

“Mas é sobretudo Sardenha: por esta solidão em cada coisa, em cada penhasco que parece fechado em si mesmo, meditando, e em cada árvore ou viandante que se encontra, e por esta luz, e por este cheiro de rebanhos a caminho, bem para lá do horizonte”.

Na dúvida, para não perder nenhuma pérola, você pega um lápis e começa a sublinhar uma e outra passagem e, quando vê, está com o livro todo rabiscado. Afinal, a linguagem é um misto de prosa e poesia, usada para revelar a ilha e seus personagens com olhos encantados, curiosos, prazerosos. Há a sensação de que o narrador descobre universos de uma forma mais profunda até do que se o próprio leitor estivesse na ilha – e a vontade é a de continuar vendo-a por meio deste olho mágico.

Há um trecho particularmente interessante, sobretudo para quem aprecia vinhos. Trata-se de “Os sobreiros”, sobre a árvore cuja casca retirada serve para fazer rolhas.

“Parecem oliveiras, de folhagem um pouco mais pálida, um pouco mais crespa, mas têm troncos que sangram. Da base até precisamente a ramificação dos primeiros galhos, toda a cortiça foi extraída. Restou o tronco vivo. Em alguns casos, de um vermelho dourado; em outros, como couro curtido. Outros ainda, sob a ação do sol, adquiriram uma coloração violácea. Os mais velhos, descortiçados no ano anterior, se recobriram de um musgo azulado. Mas não há nenhum intacto. Até as árvores mais jovens, de corpo fino, mostram um pé sangrento. Estranho como se parecem vivos estes cortes! Vem o pensamento espontâneo: pobres animais...”.

Aí a gente para e se pergunta: porque não há mais textos assim no jornalismo contemporâneo de viagens,  onde em boa parte das matérias se sente que, apesar do repórter ter estado de corpo presente, o texto é vazio de alma, como se o olhar curioso e atento do profissional estivesse a léguas de distância. O resultado: textos pasteurizados, sem vida, que são esquecidos mal finda a leitura.

Do ponto de vista histórico, pode-se dizer que a obra é o canto de cisne de um mundo que estava em ocaso. Em 1932-33, a Itália vivia sob o regime fascista de Benito Mussolini, o Partido Nacional Socialista alemão se fortalecia e pouco depois se deflagraria a sangrenta Segunda Guerra Mundial.

Não, a obra não é sedutora, daquelas que derrubam com um gesto. Antes ela é cativante, daquele tipo que envolve aos poucos até que você não consegue mais viver sem ela, que se quer ter por perto na estante para consultar sempre. Como é mesmo que Vittorini descreveu uma ilha? Ah! “Sardenha é uma verdadeira ilha, encapsulada em seu esplendor e suas tempestades”.

Ficha técnica

Avaliação
***** Leitura Imperdível

Título: Sardenha como uma Infância
Autor: Elio Vittorini
Tradução: Maurício Santana Dias
Formato: 15,5 x 19 cm
Páginas: 128.
Ilustrações: 4